Corpo e Cultura

Desejamos iniciar este texto com um exercício de imaginação criativa dos nossos leitores. Imaginem uma localidade em que convivam 42 diferentes povos indígenas, várias comunidades de quilombolas e muitas vilas e cidadezinhas cujas populações locais se mesclem em função de distintos processos de “ocupação” determinados pela colonização iniciada no período colonial, que se mantém até hoje acrescido de grupos étnicos vindos de outros países e de várias regiões do país.

Neste ambiente, qual um caledoscópio em ágeis movimentos das mãos, como poderíamos considerar a presença do corpo das pessoas, como devem ser a relação com as técnicas corporais quanto à noção de pessoa? Como pensar a corporalidade que se expressa com simbologia e cognição pela pessoa que é concebida diferentemente em cada grupo étnico, em cada sociedade/comunidade?

Aprendemos com as pessoas com as quais estabelecemos laços significativos de confiança, de vínculo afetivo, que nos despertam e nos levam a repetir suas formas de fazer, de sentir e de pensar, mas estas formas são também nossas e únicas, pois recriadas em cada contexto, vivenciadas num ambiente, num tempo e espaço único do corpo que as vivenciam.

É importante frisar que a educação nos grupos sociais e comunidades tradicionais garante a coesão social e não separa as aprendizagens técnicas das compreensões complexas do mundo espiritual, dos valores e das relações sociais que as ligam/identificam ao grupo e também nele nos diferenciam. As categorias coletivas de uma sociedade que forma sua organização e suas práticas sociais são ao mesmo tempo reconhecidas nas práticas corporais dos indivíduos desta sociedade e nos possibilitam a compreensão dos universos socioculturais nos quais se constituem.

Como a Educação Física Escolar se conduz quando a compreensão de corpo é uma totalidade complexa que produz sentidos e conceitua a vida a partir dos vínculos que estabelece com outros corpos no mundo dinâmico construído simbolicamente tanto quanto o corpo que sou ou é. Tudo o que compreendemos não cabe na lógica disciplinar ou cultural, mas tanto quanto as complexas conexões necessárias para biologicamente nos mantermos vivos são estabelecidas dentro e fora de nós, de forma visível e invisível, conhecidas e não conhecidas, são as complexas conexões necessárias para nós nos vincularmos corporalmente ao mundo pela educação que nos leva a nos reconhecermos na cultua que também se produz em cada um de nós.

Nosso corpo a partir do nascimento vai sendo construído nesta relação com o mundo da cultura, das condições ambientes e econômicas, pautado, portanto, no sentido que este adquire no grupo social ao qual será integrado pelas condições socioeconômicas e culturais. A sua “produção” como corpo implica na individualidade da pessoa em processo de construção no grupo.

A prática pedagógica da Educação Física, numa perspectiva intercultural reconhece assim que a cultura vivida no corpo que se evidencia nas danças e coreografias, nas rezas e cantigas, nos jogos e brincadeiras, nos alimentos e música, entre outras formas de fazer e ser.

Ao professor, no âmbito do componente curricular, cabe perceber as diferenças e atuar com alteridade de forma a contribuir para este vir a ser.

Texto elaborado com base no artigo da professora Beleni Saléte Grando: “Do corpo e da cultura: indícios da realidade na perspectiva intercultural”. Para a leitura do texto e de outros que tematizam o corpo como pessoa e os processos de educação como mediação da cultura, acessar o os artigos do Grupo de Pesquisa COEDUC/UFMT: http://www.coeducufmt.org/artigos

9 comentários

  1. Talvez seja necessário uma reflexão mais ampliada em tempos de tecnologias da informação tão difundidas. Até onde as novas tecnologias influenciam a apropriação cultural relativa ao corpo? Quando vejo um aluno vestindo uma roupa e gesticulando como um astro pop internacional. Não raro é observar um moleque comemorar um gol no futebol na hora do lanche imitando CR7. A questão a refletir não é aceitar ou não aceitar. A apropriação já ocorreu. E agora? Vale a reflexão. Quando ouço meus alunos cantando um funk que desrespeita a figura feminina e assassina a língua portuguesa fico em uma espécie de crise paradoxal. E aí! Isso é cultura? Sou eu o preconceituoso? Preciso rever meus conceitos…

  2. Prazer conhecê-lo professor Daniel! Me chamo Paulo Manoel e sou graduando do curso de Educação Física do Instituto de Educação Física e Esportes da UFC.
    Primeiramente quero parabenizar o senhor pelo texto, realmente ele contêm os pontos chaves que estão presentes no artigo da professora Beleni. Fica bem claro a visão do entendimento da Educação Física com base na questão da Cultura Corporal do Movimento, pois afinal, realmente a nossa população, não só no caso de Mato Grosso como cita a professora, nada mais é do que uma grande mistura do pouco de cada cultura que há, desde os indígenas até os europeus, asiáticos, africanos dentre outros. Essa visão da Cultura Corporal do Movimento, composta pelo “corpo” e pela “cultura”, realmente é algo que devemos cada vez mais levarmos em consideração, afinal é através do nosso corpo que expressamos a cultura em que fomos criados. Infelizmente, como é citado no artigo, ainda hoje há a visão da “superioridade” que nos foi imposta pelos colonizadores. Mas é preciso cada vez mais lutarmos contra ela e é aí que nós, professores de Educação Física, devemos fazer a nossa parte valorizando e respeitando cada indivíduo com suas particularidades, só então passaremos a ter crianças e jovens que saberão respeitar as diferenças do próximo, se conhecer e expressar a sua verdadeira “identidade corporal”. Grato pela atenção e continue com o excelente trabalho.

  3. Excelente texto, gostei muito da temática visto que em nosso país a diversidade cultural é vasta e signifitiva, torna-se cada vez mais importante essa reflexão de corpo e cultura atrelados. Nos faz refletir também quanto aos conteúdos abordados aos alunos na educação física infantil principalmente, onde a corporalidade ainda está em desenvolvimento, pelo seu aspecto social, afetivo entre outros .
    Essa compreensão ficou bem clara para mim no seguinte trecho: “Como a Educação Física Escolar se conduz quando a compreensão de corpo é uma totalidade complexa que produz sentidos e conceitua a vida a partir dos vínculos que estabelece com outros corpos no mundo dinâmico construído simbolicamente tanto quanto o corpo que sou ou é.”

  4. Professor, parabenizo-o pelas reflexões advindas do texto bastante rica, pois o que seria das relações (com ambiente, social, afetiva) sem os questionamentos? Com a leitura, a percepção da individualidade de cada sujeito ativo entre essas relações se dá em detrimento do sócio – histórico, identificando que os saberes adquiridos são provenientes de outro ser humano com suas características ímpares. Mas enfatizando que o indivíduo possui um corpo com um “devir” dentro de uma cultura, cabendo a (o) professora (o) em sua prática pedagógica de Educação Física escolar elencar as potencialidades para além do biológico, ou seja, buscando do aluno um processo de formação a partir da sociedade, percebendo as interrelações desses conhecimentos dentro de várias perspectivas culturais, pois cada ser traz consigo um papel importante na construção de saberes.

    1. Olá, Emmanuelle.
      Sua contribuição, encaminhando para uma visão de diferentes perspectivas culturais é a demonstração de que é, efetivamente, possível modificar a avançar no campo da formação de nossas crianças e adolescentes, quiçá dos adultos.
      Parabéns!!!

  5. Olá Prof. Daniel

    Esse texto destaca que a corporalidade está intimamente ligada à cultura e às relações sociais, embora seja expressa de maneira individual. A complexidade da percepção do corpo como prática social, espaço de convivência e produção de sentidos trazem à tona o que pode ser apresentado pela linguagem corporal. E cabe ao professor exercer o papel de fundir as diversas culturas, valores, experiências e contexto social a fim de tornar o indivíduo ou grupo de indivíduos conscientes de suas manifestações corporais.

  6. Um tema muito questionador e reflexivo. É muito importante que saibamos que cada um de nós carregamos em nosso corpo uma cultura de herança, seja no biológico, tanto no jeito de ser. Temos como alunos de educação física tentar de alguma forma trazer um pouco dessa herança que herdamos para as aulas. E saber que educação física é uma porta de conhecimentos corpóreos e mentais que precisamos conhecer em nossa vida. uma sugestão: Seria interessante se ao longo dos anos colocarmos alguns esporte das etnias ou povos diferentes nas aulas, ou melhor, fazermos vivências com esses curtumes corporais de outros povos.

  7. Caro professor,
    O corpo e a cultura foram assuntos que caminharam paralelamente a muito, muito tempo. Desde da idade da pedra, os habitantes buscaram meios de usar o corpo como comunicação entre si, eu acho que entre esses assuntos ainda há mais um tópico: Sociedade, como eu disse anteriormente, o corpo começou a ser usado como meio de comunicação entre uma sociedade. Até hoje, encontramos meios alternativos para comunicação usando o corpo, como as libras. Eu achei esse texto bastante interessante e que acaba fazendo a gente refletir sobre esse assunto.

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